Contexto: A produção científica sobre educação de profissionais de saúde (EPS) está em expansão, mas continua distribuída de forma desigual entre regiões e idiomas. A cienciometria pode orientar esforços para fortalecer a bibliodiversidade, particularmente nas regiões do Sul Global sub-representadas na metapesquisa sobre EPS.
Objetivos: Este estudo tem como objetivo caracterizar as publicações da América Hispânica nas áreas de medicina, enfermagem, odontologia e medicina veterinária, examinando a produtividade, os periódicos de publicação, a colaboração, o gênero e a evolução temática.
Métodos: Foram analisados artigos de periódicos sobre EPS (1992–2025) indexados no PubMed, Scopus e SciELO Citation Index (Web of Science), exigindo-se pelo menos uma afiliação de autor da América Hispânica. Os registros foram combinados, as duplicatas foram removidas e os dados foram revisados e, posteriormente, analisados por meio do Bibliometrix/Biblioshiny (concentração de Bradford, produtividade dos autores e redes). O gênero dos autores foi inferido a partir dos nomes utilizando o gender-guesser.
Resultados: Foram recuperadas 3.598 publicações (crescimento anual de 7,8%), de autoria de 11.240 indivíduos de 1.563 instituições e publicadas em 796 periódicos. A medicina concentrou a maioria dos artigos (n = 2.182), seguida pela enfermagem (n = 637), odontologia (n = 318), medicina veterinária (n = 68) e ciências da saúde de caráter multidisciplinar (n = 403). O ano de 2023 foi o mais produtivo, com 319 artigos. Quatrocentos e trinta e sete artigos foram de autoria individual. A produtividade dos autores apresentou uma distribuição de cauda longa: 83,4% publicaram apenas uma vez e 1,2% publicaram mais de cinco artigos. A coautoria internacional correspondeu a 17,2%; a colaboração formou grupos coesos, porém com conexões limitadas entre eles. A publicação mostrou-se concentrada: 15 periódicos principais (1,9%) produziram 34% dos artigos. Chile, México, Peru, Colômbia e Cuba lideraram a produção.
Das publicações, 2.306 (64%) estavam em espanhol, 1.260 (34,9%) em inglês e 42 (1,1%) em ambos os idiomas. A distribuição por gênero foi praticamente equilibrada (mulheres: 50,7%; homens: 47,3%; 0,35% andrógino e 1,7% não classificado), embora as mulheres estivessem sub-representadas entre os autores mais prolíficos. As palavras-chave enfatizaram ensino/aprendizagem e currículos/avaliação, enquanto, após 2020, ganharam destaque saúde mental e educação a distância/formação por simulação.
Sánchez-Mendiola M, Santos Solórzano R, Bonilla Cerquedo D, Luna de la Luz V, Gutiérrez-Cirlos C, Martínez González A. Mapping the landscape: A scientometric analysis of health professions education literature in Hispanic America. Med Educ. 2026;1-10. doi:10.1111/medu.70273.
García Dieguez M. Comentário sobre a O que a Produção Científica nos Diz sobre a Educação de Profissionais de Saúde na América Hispânica?. [Internet]. Organização Pan-Americana da Saúde. Repositório Bibliográfico. Disponível em: https://campus.paho.org/pt-br/repo/producao-cientifica-diz-educacao-profissionais-saude-america-hispanica
García Dieguez M.
CEEProS Universidad Nacional del Sur
Este artigo constitui uma referência indispensável para pesquisadores e líderes envolvidos em programas de educação de profissionais da saúde na América Latina. Por meio de uma análise bibliométrica de mais de três décadas de publicações provenientes da Hispano-América, oferece uma visão abrangente sobre quem produz pesquisa, onde publica, como colabora e quais temas vêm moldando o campo. Mais do que descrever a produtividade científica, o estudo estimula a reflexão sobre bibliodiversidade, barreiras linguísticas e desigualdades estruturais que condicionam a visibilidade internacional da produção científica regional. Seus resultados são especialmente relevantes para pesquisadores, editores científicos, formuladores de políticas de ciência e tecnologia e líderes acadêmicos.
O estudo analisou 3.598 publicações em educação de profissionais da saúde produzidas entre 1992 e 2025, identificadas nas bases PubMed, Scopus e SciELO, constituindo uma das maiores análises bibliométricas da produção científica hispano-americana nessa área. A produção científica apresentou crescimento anual sustentado de 7,8%, embora concentrada principalmente na medicina, seguida pela enfermagem, odontologia e medicina veterinária. Chile, México, Peru, Colômbia e Cuba lideraram a produção regional, enquanto 64% dos artigos foram publicados em espanhol e 35% em inglês, refletindo um ecossistema científico predominantemente hispanofalante. Os resultados mostram que a pesquisa regional apresenta uma estrutura de "crescimento com fragilidade": o volume de publicações continua aumentando, porém permanece concentrado em poucos países, instituições e periódicos. Apenas 15 periódicos (1,9%) concentram 34% de toda a produção, a maioria dos autores publica apenas uma vez e a colaboração internacional alcança somente 17,2%. A análise temática também demonstra uma evolução dos temas tradicionais, como currículo, ensino e avaliação, para saúde mental, burnout, simulação, educação a distância e pandemia de COVID-19. O artigo introduz conceitos relevantes como bibliodiversidade, dinâmica centro-periferia e injustiça epistêmica, propondo que grande parte da produção latino-americana permanece pouco visível devido às barreiras linguísticas e aos sistemas internacionais de indexação.
Do ponto de vista metodológico, trata-se de um estudo bibliométrico robusto. Entretanto, os próprios autores reconhecem limitações importantes, como a exclusão da literatura cinzenta, livros e anais de congressos, a ausência de classificação metodológica dos estudos incluídos e a exclusão do Brasil, Espanha e Portugal. Assim, os resultados não podem ser generalizados para toda a Ibero-América.
- Publicar simultaneamente em espanhol e inglês (título, resumo e palavras-chave) para ampliar a visibilidade internacional sem perder a identidade regional.
- Promover redes latino-americanas de pesquisa multicêntrica para fortalecer a colaboração internacional e a produção científica contínua.
- Fortalecer os periódicos regionais por meio de metadados bilíngues, DOI, ORCID e indexação em bases internacionais.
- Incentivar programas institucionais de mentoria, formação em pesquisa em educação e tempo protegido para produção científica.
- Incluir bases regionais, como a SciELO, em revisões sistemáticas e buscas bibliográficas para reduzir o viés em favor da literatura anglófona.
- Avaliar a produção científica considerando a diversidade linguística e contextual, evitando depender exclusivamente de indicadores bibliométricos tradicionais.